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Comportamento

Sobre o tal misterioso homem que teria pressionado por demissão de jornalista

Fiquei a imaginar quem seria o tal misterioso homem de contida estatura, calvo no telhado superior e com fios de neve derretida nas laterais, que teria procurado a direção do jornal para reclamar do jornalista Pablo Rodrigues, demitido do Diário Popular na terça-feira passada. Os boatos dizem que, maneiroso, o homem agiria segundo a seguinte […]

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Fiquei a imaginar quem seria o tal misterioso homem de contida estatura, calvo no telhado superior e com fios de neve derretida nas laterais, que teria procurado a direção do jornal para reclamar do jornalista Pablo Rodrigues, demitido do Diário Popular na terça-feira passada.

Os boatos dizem que, maneiroso, o homem agiria segundo a seguinte estratégia: nunca pediria a cabeça de ninguém diretamente, pois soaria muito baixo, algo que sua presunção não toleraria.

Pois se de fato se trata da mesma pessoa que estou pensando, acho que eu a conheço.

Sendo mesmo o “algoz” que dizem ser não me surpreenderia que tenha feito mesmo o que se está dizendo à boca pequena, nos quatro cantos, que ele fez, uma campanha periódica e persistente para vencer, de preferência em primeiro turno, uma batalha quase pessoal pela suposta degola do jornalista Pablo Rodrigues, do Diário Popular.

Pablo foi demitido nesta terça-feira (19). Ele assinava uma coluna de opinião com liberdade, ainda que, sendo os jornais brasileiros como são, possa ter exercido seu trabalho em regime de “liberdade vigiada”, sobretudo pelo tom crítico assumido pelo jornalista, incomum no centenário jornal.

Em suas colunas, sempre escritas com apreço pela palavra e pelas humanidades, Pablo cumpria um ditame essencial à função que exercia – a liberdade de pensamento. Não fosse assim, não faria jus ao epíteto de Colunista de “Opinião”.

Voltando ao tal misterioso homem de “insistência periódica”…

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Como eu disse, se for ele a pessoa que eu penso que ele seja, diria que sempre me pareceu mesmo um tanto misteriosa, no sentido de que um bicho da fruta de um pêssego possa pensar que seja misterioso em sua ação. Ele me parece ser um ser dotado da qualidade “densamente denunciadora” de quem secreta uma dor profunda em segredo e que, pelas circunstâncias, é obrigado a suportá-la primeiro em si, para então, paradoxalmente, poder suportar a vida.

Sabe Gregor Sansa, personagem do Kafka que certa manhã desperta e, em pânico, descobre que se transformou num inseto monstruoso?

Passada a repugnância inicial, sem saída senão encarar a si mesmo, o homem-inseto decide se familiarizar com as inéditas habilidades adquiridas pela nova compleição, como doze patinhas para escalar a contento as paredes e, claro, uma vez no limite do esquadro, percorrer ‘de costas para baixo’ o teto.

E então esse se torna o seu segredo, seu arcabouço natural, curiosamente um segredo que ele julga ser oculto, mas que é de uma claridade que chega ao ponto da cegueira por piedade, porque a cidade, infelizmente, às vezes dá a impressão de ser mesmo muito pequena, menor até que uma fruta ou o bicho que nela se infiltra e putrefaz.

Para resumir a coisa: se for a mesma pessoa, eu diria que a cidade até pode ser pequena, mas ela, pessoalmente, sempre será menor.

Jornalista. Editor do Amigos de Pelotas. Ex Senado, MEC e Correio Braziliense. Foi editor-executivo da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi). Atuou como consultor da Unesco e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Uma vez ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo, é autor dos livros Onde tudo isso vai parar (finalista do Prêmio Açorianos/2026) e O fator animal, publicados pela Editora Lumina, de Porto Alegre. Em São Paulo, foi editor free-lancer na Editora Abril.

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