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Opinião

A estratégia malandra do PSDB para impedir a CPI

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O líder do PT na Câmara, vereador Marcos Ferreira, o Marcola, fechou um acordo pessoal com o líder do governo no Legislativo, o colega advogado Fabrício Tavares, do PSD. A dupla acertou o destino de um assunto de interesse coletivo. O que acertaram?

A dupla acertou o “adiamento” de uma CPI para investigar possíveis irregularidades na prefeitura de agora para depois da eleição de outubro. Justificativa para o “adiamento”: evitar a eventual utilização política da CPI em período eleitoral, já que o ex-prefeito tucano Eduardo Leite concorrerá a governador.

Advogado Tavares: defensor de Leite

Na prática, foi um acordo para não prejudicar o caminho do tucano ao Piratini.

Foi na prefeitura de Leite que as fraudes na concessão de lotes e apartamentos do Programa Minha Casa Minha Vida teriam ocorrido.

Como se soube na semana passada, os possíveis malfeitos estão sendo investigados pela Polícia Federal, a pedido da Justiça.

Nada menos que 40 policiais federais da Operação Dominus cumpriram mandatos de busca e apreensão nas residências e gabinetes dos vereadores Waldomiro Lima, do PRB, Ademar Ornel, do DEM, e outros locais.

Como numa ação da Lava jato, a PF levou documentos, computadores e outros objetos. Na casa de Lima, apreendeu um revólver calibre 38 sem registro. Conduzido à Delegacia num carro preto com vidro fumê, Lima pagou fiança de R$ 5 mil por posse de arma clandestina e saiu livre.

Qual a relação de Waldomiro com Leite?

Waldomiro, detido pela PF, ao lado de Paula, inaugurando obras

Leite nomeou um apadrinhado político de Waldomiro para uma pasta criada especialmente por ele, Leite: a Secretaria de Habitação e Regularização Fundiária, onde as fraudes teriam se dado. O apadrinhado: Ivan Vaz, biólogo, do mesmo partido de Waldomiro, PRB. A dupla não possui qualificação profissional e técnica na pasta para geri-la nem indicar gestores a ela.

Estratégia “moral”

A investigação pela Polícia Federal das supostas fraudes na gestão Leite ocorre em “segredo de justiça”. Com isso, informações preciosas não são divulgadas.

Já com a CPI, aquelas informações preciosas viriam a público desde já.

Portanto, o adiamento da CPI, pelo acordo amigável entre os líderes do PT e do governo do PSDB, é uma circunstância conveniente ao candidato Leite. Na verdade, é mais que só conveniente, porque isso “de ser conveniente” – sozinho, só isso – soa rude demais num político de estirpe [para quem a conveniência precisa ser embalada por uma justificativa moral, de preferência com arremate nobre do pacote].

A justificativa tem a pretensão de ser uma “estratégia brilhante”. Por quê?

Por isso: no meio de uma campanha eleitoral, não pega bem ser contra uma CPI.

Então, eles fazem o quê?

Eles fazem assim: eles dizem em público SER FAVORÁVEIS à CPI, só que NÃO AGORA. Mas sim depois da primavera, quando os brotos tiverem dado frutos; no verão, quando o clima estiver mais ameno.

Mesmo que a voz de Leite não se faça ouvir na decisão, sua elegante figura emerge sobre ela do mesmo modo que o espaço sideral se agiganta aos olhos do cientista.

Qual o medo?

A pergunta é inevitável: Do que tem medo Eduardo Leite, se culpa não tem?

Jamais um governo inocente poderia ser contra uma CPI, em qualquer tempo, certo? Isso é mais óbvio que a morte.

Alguma coisa na estratégia acima faz o leitor se lembrar do PT, além do que já faz lembrar o petista Marcola e seu acordo privado com Tavares? Se lembrou, faz sentido lógico.

O PT se julgava moralmente superior, mesmo depois de seus piores crimes terem sido desvendados pela PF e pela Justiça. Como todos sabemos, quando a farsa caiu, continuaram posando de moralistas. Deu, vem dando, no que sabemos…

Como estamos vendo mais uma vez, aquele comportamento que condenamos no PT não é coisa só do partido da estrela. É um problema da velha política, na qual, para o bem e para o mal, floresceu Eduardo Leite.

Políticos convencionais de partidos tradicionais agem assim: procuram revestir de nobreza seus gestos mais questionáveis, pois acreditam que a sociedade tem os sentidos embotados; que todos nós não passamos – perdoe – de uns bons trouxas.

Na hipótese mais generosa – segundo a avaliação deles – eles calculam que pelo menos metade da população que acompanha o noticiário certamente será trouxa, que a outra metade logo esquecerá o assunto, e vão em frente.

Eduardo Leite e Marcola, em Brasília, 

Se alguém tinha alguma dúvida de que PT e PSDB são a mesma coisa, eis mais um exemplo para tirar a prova. Dois partidos da velha política, para quem o que importa é a sobrevivência eleitoral, apesar dos malfeitos ou da eventualidade desses.

Pelo acordo, na futura-quem-sabe-possível-CPI-pós-eleição, Tavares seria o presidente da Comissão de Inquérito e Marcola, o relator. Sim, nas negociações, a dupla “já” tratou disso também. Tudo muito profissional, para convencer a gente de que a CPI não está sendo enterrada, que ocorrerá – OBRIGATORIAMENTE – na primavera ou no verão.

Querendo, acredite…

Releia a pretensão moral: Tavares disse que o acordo com Marcola “foi a forma de resolver um problema, já que o número de assinaturas mínimo para instalar uma CPI é de sete, e só havia seis, contando com a de Marcola”.

Dos três vereadores de oposição indecisos, bastaria que um (o sétimo) assinasse o requerimento e a CPI avançaria.

A pressão sobre eles foi grande. Vc sabe, está sendo um ano muito complicado…

Éder Blank, do PDT, logo foi avisando que não assinaria.

Já Toninho Peres e Zilda Bürkle, ambos do PSB, não sabiam o que fazer. Antes que a agonia se prolongasse, trataram de eliminá-la, com a subtração da assinatura de Marcola e o anúncio do acordo de adiamento da CPI entre PT e PSDB, com apoio de vereadores do PSB e do PDT.

Coisas da velha política, um ambiente onde, apesar de tudo, infelizmente ainda se persiste na lógica de que a ocupação de maiores espaços de poder é mais importante que fiscalizar a ocorrência de crimes na administração pública, sem calcular os passos, incluindo temporais.

Tudo o que eles querem é “chegar lá”, de preferência pelo caminho menos pedregoso.

Caminham com bolhas pelo deserto.

8 Comments

8 Comments

  1. Fabio Bortoncello

    21/06/18 at 16:39

    Eduardo está rodando o estado lançando o que ele denomina ‘Rumos Para O Rio Grande’.
    Isso já não seria campanha política fora do prazo legal??

    • Daltro Dias Irigoyen

      28/06/18 at 22:42

      Eduardo candidato jovem . Que na idade e muito velho pois seus métodos de fazer política , não são nada REPUBLICANOS pois como Presidente do seu Partido ” TUCANOS ” . No momento de apoiar o Governo Sartori , na Assembleia Legislativa por ocasião da homologação , da lei que autorizaria o PLEBISCITO , da extinção das Autarquias , junto com as eleições , que daria o direito ao POVO a escolha de continuação ou não da permanência das mesmas . no governo . Mesmo tendo o seu Partido participado por três anos e meio da governança inclusive , comandando a Secretaria de Minas e Energia e a Presidência da CEEEE mesmo assim , afastou os seus secretários , induziu os seus deputados a votar contra o ´projeto , aliando-se aos Partidos de esquerda . Como se fala na campanha ” VIROU O COCHO ” , mais foi o verdadeiro tiro no pé , o tempo é o senhor da RAZÃO , este mundo é redondo ………………………

  2. João

    21/06/18 at 01:05

    Eduardo Leite tem 1/3 da intenção de votos de Sartori. Suas chances são mínimas e assim devem continuar, pois caso sejam confirmadas as denúncias de corrupção em seu governo, merece ser banido da política.

  3. Nereu Vargas

    20/06/18 at 18:30

    Teremos um político pelotense com menos de 40 anos aposentado com salário de mais de 25 mil reais??
    Basta Eduardo Leite se eleger governador.
    Será que ele, todo correto, abriria mão desta aposentadoria em nome da ética?

  4. Paulo Soares

    19/06/18 at 06:20

    E ainda tinha gente que acreditava que o governo Leite era a “nova política “!

  5. Loiva Hartmann

    18/06/18 at 16:01

    Não pertenço ao PT e nem ao PSDB. Mas, torço pelo desenvolvimento da Região Sul, na qual tenho minha família, estudei e vivo. Lendo o texto do “Amigos”, vejo que a resposta sobre a não instalação da CPI sobre o Minha Casa Minha Vida está no próprio texto !!! A CPI será política e não investigativa. Nâo conheço nenhum vereador com esse preparo. Em segundo lugar: por que a redundância de investigação? A PF está há mais de ano investigando. Por acaso há recursos abundantes??? Há motivos para o lento desenvolvimento da Zona Sul e, em especial de Pelotas: muita conversa, debates inúteis, suspeitas infundadas, etc. Fazer política, a boa política, é outra coisa. HOJE, o que temos que ter presente, é que temos alguém da cidade, desinportando o partido, candidato a governador. Todos deveriam estar voltados para esse fato. E não E não tergiversando, conversando e outros … ando. As eleições de 2018, serão a medida exata da maturidade de cada comunidade.

  6. Diego

    15/06/18 at 10:42

    Faz tempo que o Marcola deixou de ser oposição. Não sei por que continua no PT.

  7. Fernando

    15/06/18 at 02:44

    Infelizmente vivemos em um mundo de safadeza. O PT vai buscar apoio do PSDB no segundo turno, uma vez que o provável cenário será Sartori X Rosseto. Para isso, aparentemente está tentando encobrir todas as eventuais barbaridades ocorridas nos governos Leite e Paula que, cada vez mais, estão vindo à tona.

Obrigado por participar. Comentários podem ser rejeitados ou ter a redação moderada. Escreva com civilidade, por favor. Abç.

Opinião

O AMOR E A LOUCURA ANDAM JUNTAS. Por Jacinto Bergmann

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Dom Jacinto Bergmann / Arcebispo Metropolitano da Igreja Católica de Pelotas

Início a minha reflexão com uma estória: “A Loucura resolveu convidar os amigos para tomar um café em sua casa. Todos os convidados foram. Após o café, a Loucura propôs: – Vamos brincar de esconde-esconde? -Esconde-esconde? O que é isso? – perguntou a Curiosidade. – Esconde-esconde é uma brincadeira. Eu conto até cem e vocês se escondem. Ao terminar de contar, eu vou procurar, e o primeiro a ser encontrado será o próximo a contar. Todos aceitaram, menos o Medo e a Preguiça. – 1,2,3…- a Loucura começou a contar. A Pressa escondeu-se primeiro, num lugar qualquer. A Timidez, tímida como sempre, escondeu-se na copa de uma árvore. A Alegria correu para o meio do jardim. Já a Tristeza começou a chorar, pois não encontrava um local apropriado para se esconder. A Inveja acompanhou o Triunfo e se escondeu perto dele debaixo de uma pedra. A Loucura continuava a contar e os seus amigos iam se escondendo. O Desespero ficou desesperado ao ver que a Loucura já estava no noventa e nove. – CEM! – gritou a Loucura. – Vou começar a procurar… A primeira a aparecer foi a Curiosidade, já que não aguentava mais querendo saber quem seria o próximo a contar. Ao olhar para o lado, a Loucura viu a Dúvida em cima de uma cerca sem saber em qual dos lados ficar para melhor se esconder. E assim foram aparecendo a Alegria, a Tristeza, a Timidez… Quando estavam todos reunidos, a Curiosidade perguntou: – Onde está o Amor? Ninguém o tinha visto. A Loucura começou a procurá-lo. Procurou em cima da montanha, nos rios, debaixo das pedras e nada do Amor aparecer. Procurando por todos os lados, a Loucura viu uma roseira, pegou um pauzinho e começou a procurar entre os galhos, quando de repente ouviu um grito. Era o Amor, gritando por ter furado o olho com um espinho. A Loucura não sabia o que fazer. Pediu desculpas, implorou pelo perdão do Amor e até prometeu segui-lo para sempre.  O Amor aceitou as desculpas. Hoje, o Amor é cego e a Loucura o acompanha sempre”.

A última frase dessa estória é uma conclusão e contém uma afirmação:  Conclui que o amor é “cego” e afirma que a “loucura” acompanha o amor. Mas deixa tudo em aberto, para que nós nos perguntemos: Por que o amor é “cego”? por que a “loucura” acompanha o amor? Ensaio aqui uma resposta às duas questões sob o prisma da boa nova cristã.

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Por que o amor é “cego”? Jesus de Nazaré ensinou que o amor cristão “não enxerga” (quem não enxerga é “cego) as limitações do amado. Enxerga tão somente o amado a ser amado. Ama gratuitamente. Chega a amar o amado por causa de suas limitações e não por seus acertos. Pois, Jesus de Nazaré viveu o amor “cego” como ele ensinou. Amou não levando em conta as “limitações” do ser humano. Como Deus “nascido numa gruta de animais” assumiu a natureza humana limitada, viveu 30 anos escondido numa família, pregou a boa nova aos “pequenos e simples”, pediu que fosse “dado a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, sujeitou-se a não ter “onde reclinar a cabeça”, abraçou a cruz e a morte de cruz… tudo isso, amando gratuitamente – como “cego”, por causa dos pecados da humanidade e em vista da sua redenção. Que cenário de gratuidade – “cegueira” – do amor! Eis um amor “cego” e por isso salvador.

Por que a “loucura” acompanha o amor? Jesus de Nazaré ensinou que o amor cristão não caminha apenas segundo as razões, segundo os desejos, segundo as regras, segundo os interesses, segundo os direitos, segundo as compensações (não caminhar segundo as razões… é “loucura”). O amor cristão caminha colocando tudo em função do amado; coloca o “sábado para o homem e não o homem para o sábado”. Ama desinteressadamente. Chega amar o amado por causa de suas feridas e não por causa de suas belas e razoáveis aparências. Pois, Jesus de Nazaré viveu o amor “desinteressado” como ele ensinou. Amou não levando em conta apenas as “razões” do ser humano. Como Mestre da “vida plena para a qual veio” escolheu “pescadores e publicanos” para discípulos e apóstolos, conviveu com pecadores discriminados, curou leprosos marginalizados, acolheu prostitutas desprezadas, identificou o Reino de Deus com as crianças “pequenas e simples” (e não com não-crianças “grandes e complicadas”), corrigiu a religião “hipócrita e vazia”, deixou-se condenar pelo poder mundano e falso, caminhou para o calvário sob o peso da cruz dos malvados, morreu como “grão de trigo” inocente, deixou o sepulcro como ressuscitado… tudo isso, amando desinteressadamente – como “louco”, por causa dos pecados da humanidade e em vista da sua redenção. Que espetáculo de desinteresse – “loucura” – do amor! Eis um amor “louco” e por isso salvador.

Em Jesus de Nazaré “o Amor cegado pelo espinho e a Loucura seguidora do Amor” tornou-se real! Que em nós cristãos também o Amor e a Loucura andem juntas!

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Brasil & Mundo

Apesar dos monopólios nas viagens de ônibus, a Buser vai se impor. O Brasil agradeceria

Apesar do que a esquerda propala, os nossos liberais querem o bem do Brasil, não o contrário. Liberdade econômica, para eles, é A Mãe de Todas as Liberdades

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O novo serviço de transporte intermunicipal em ônibus, que entrou neste mês em operação no Rio Grande do Sul, por meio da empresa Buser, e as resistências que têm sofrido do governo do estado, são um caso exemplar do deficiente modelo de capitalismo que temos no Brasil – e que os liberais brasileiros se esforçam para mudar: capitalismo cartorial, em que o interesse dos monopólios, dos políticos (e de boa parte da imprensa) vem primeiro, enquanto o consumidor vem sentado no último banco, ao lado do banheiro.

Há um livro excelente que mostra por que os Estados Unidos são o que são como país em termos de produção, competividade, riqueza. Chama-se Capitalismo na América, escrito pelo economista Allan Greenspan, o mítico presidente do Federal Reserve, o Banco Central deles, por 19 anos.

Ao contrário do Brasil, nos EUA a atividade econômica é majoritariamente desregulamentada para favorecer o empreendedorismo, a inovação, o mercado, o consumidor. Ler Greenspan, uma aula de economia, mostra também por que o Brasil é mais pobre naqueles quesitos estruturantes – riqueza, produção, competividade: atrasado séculos em relação aos EUA.

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CAPITALISMO NA AMÉRICA

Os americanos não temem a inovação nos negócios. No Brasil, os cartórios são fortificações comparáveis às Muralhas da China, sobretudo nos serviços de concessão do Estado. Aqui o sistema está armado para impedir ou retardar a inovação, com o objetivo de manter os privilégios. Há vários motivos para compreender a natureza deste gene fundador do Brasil. O principal, talvez: aqui tivemos Rei, e, tendo-o, vimos surgir essa figura fruto da precisão definidora brasileira, os “Amigos do Rei”, beneficiários dos cartórios outorgados pelo Trono Real, franquias “modernas” das capitanias hereditárias, pelas quais, 500 anos após o descobrimento, mostram-se sempre prontas a retribuir ao Rei, hoje governos, na forma de compensações sociais.

Nos EUA, não tiveram Rei. Lá, quem forjou a nação foram os pioneiros, desde que as 13 colônias de migrantes se instalaram lá na terra das Bruxas de Salem. O próprio cidadão colonizou aquele País, e – sem esperar nada de ninguém que não dos próprios braços – impediu toda e qualquer forma de apropriação de suas riquezas por governos. A gente vê essa autonomia deles nos filmes de faroeste: “Toma a estrela, o xerife é tu”. A coisa lá, desde sempre, foi assim: os pioneiros elegiam, entre si, os seus representantes. Não precisava o governo nomear.

“Toma a estrela, o xerife é tu!”

Depois de ler Capitalismo na América, o leitor começa a entender as ideias que os liberais brasileiros tentam inserir no Brasil. É sempre uma luta titânica (aquela muralha), inclusive porque o emaranhado legal sobre o qual se amparam os cartórios foi criado para dificultar a vida dos inovadores e do livre mercado.

Apesar do que a esquerda propala, os liberais querem o bem do Brasil, não o contrário. Querem liberdade econômica, para eles A Mãe de Todas as Liberdades, porque entendem que a livre iniciativa liberta a sociedade do jugo do Estado; juntos, governos e cartórios formam um bloco compacto de poder, enquanto o povo vive nas galés, sustentando o bloco, quando poderia ele mesmo, favorecido por aquele espírito dos colonos americanos, apropriar-se dos dividendos de seu próprio esforço para tocar a vida como melhor lhe aprouvesse.

Para os liberais, impedir a inovação e a concorrência desfavorece a cidadania e o seu correspondente econômico: o consumidor, que deveria ter a disposição um cardápio de escolhas e a palavra final. Para eles, o combinado de liberdade de mercado e governo concentrado na saúde, na educação, na segurança faria bem ao Brasil, que adquiriria um ânimo de trabalho e de criação adormecido, passando a depender menos do governo e mais de si próprio, não mais tão suscetível a governos e a benemerências sociais feitas com o excedente de seu dinheiro – e em seu nome. Quem precisa de favor do Estado se pode conseguir as coisas por si mesmo? Citando um tema da hora, ficar esperando do governo doações de absorventes íntimos não é humilhante? O que vem depois? Tinha de reverter essa tendência.

VITÓRIA RÉGIA

O simples fato de que membros do partido Novo sejam hoje quase vozes solitárias no Brasil a se posicionar claramente a favor da Buser, como o deputado Fábio Ostermann, Novo/RS, enquanto políticos de outros partidos se conservam mudos e com cara de paisagem como um Buster Keaton, demonstra a que ponto os cartórios de capitanias estão entranhados não só nas esferas de poder, mas também no senso médio do cidadão, que, por inércia, sente-se agradecido ao monopólio, quando na verdade é ele quem o sustenta.

Basta perguntar o que o restante da imprensa não tem perguntado em voz alta: Por que, após o Daer (Departamento de Estradas de Rodagem, órgão do governo do estado – Eduardo Leite) ter agido para tentar frear a presença da Buser nos transportes intermunicipais no RGS, na semana passada, políticos dos demais partidos não deram um pio sobre a questão? Esse estrondoso silêncio, ao qual, como atores canastrões, fazem eco certos nichos da imprensa autoproclamada independente (“tsc”), é resultado de décadas de autoproteção dos cartórios e dos seus beneficiários periféricos, que, a pretexto da “convivência civilizada”, embolsam uma fatia dos lucros ao evitar jogar pedras no manso lago onde repousam as Vitórias Régias. “Tão lindas as nossas Vitórias Régias! Melhor deixar o lago quieto.”

Buster Keaton, o comediante: cara de paisagem

O caso dos monopólios brasileiros no transporte é clássico. No sistema aéreo, hoje a competição voa. No terrestre, onde é mais ramificado, o percurso é mais longo e difícil. Como há décadas estão sozinhos no mercado, sem competidores a lhes ameaçar o conforto e a tabela de preços, eles estabeleceram a prestação de serviços de concessão pública nos termos que lhes convieram, e neles se acomodaram, sabendo que os consumidores, sem saída, se acostumariam aos serviços por absoluta necessidade. Os lucros, certos e graúdos, continuam a fluir em cascata para a piscina-cofre do Tio Patinhas. A julgar pela grande luta travada pela Buser para se firmar em toda a federação, a tendência é que Patinhas se veja obrigado a diminuir a altura do trampolim para evitar acidentes.

A Buser cobra pelas passagens até 60% menos do que o preço cobrado em rodoviárias do País. Se o benefício é evidente para o consumidor, por que o governo gaúcho “trabalha” para impedir a empresa de atuar no mercado estadual? O que ganha com isso? Não deveriam os governos trabalhar em favor da população, em benefício do bolso do consumidor? Ultimamente o governo gaúcho, através do Daer, vem apreendendo ônibus da Buser. Por sua vez a Buser vem lutando na justiça para derrubar as oposições, e mais: mantendo o serviço no RGS. Tem tido assim em todos os estados da federação, uma luta para fazer valer no Brasil a inovação.

Buser: inovação com qualidade e preços baixos

RESPONSABILIDADE SOCIAL

No Brasil, diz-se que o bêbado nativo reserva o primeiro gole para o santo. No caso dos monopólios, o primeiro gole pode nem sempre ser para o santo. É certo, porém, que este não ficará sem saborear, em algum momento, o paladar de um Ferreira Garrafeira Port Tinto. Como o dinheiro está sobrando, os monopólios reservam parte do excedente da montanha dos lucros para financiar “projetos sociais”, muitas vezes em parceria com governos, com todos faturando o gesto como preocupação social. É sempre boa política devolver um pouco de atenção aos de baixo, sobretudo aos que estão um pouco acima entre os debaixo.

Ostentar o Selo de Responsabilidade Social é visto como algo de grande sensibilidade em um território tão desigual. Ou seja, no modelo atual, não competitivo, o vínculo entre concessionários, governantes (e jornalistas) tende a se tornar um meio de vida, em que cada ator representa seu papel conforme um roteiro baseado na repartição conveniente da riqueza concentrada. Numa peça assim, o povo, sempre tão volúvel, é um detalhe, como nas histórias de Shakespeare. E ao fim jornalistas, após alguns conflitos (será?), repetem Hamlet: “O resto é silêncio.”

Hamlet, de Shakespeare: “O resto é silêncio”

O teatro é quinhentista, mas não há grandeza no edifício quando o cartório é o patrocinador da mesma e entediante peça. Os “benefícios sociais” são a cota que se paga para que nada mude. Muita gente aplaude, sem se dar conta de que a benemerência é feita com chapéu alheio, dos próprios consumidores, que pagam mais caro para sustentar o monopólio. Afinal, o dinheiro é de todos nós, o povão, consumidor cada vez mais exigente, que temos sido obrigados a bancar o cartório e as adjacências nas coxias, quando podíamos, se houvesse concorrência (e começa felizmente a haver), pagar mais barato pelas passagens, sem perder qualidade nos serviços (até mesmo ganhar!), e com a oferta de promoções, como vemos nas empresas aéreas e telefônicas; e, ora bolas, dispor de mais dinheiro no nosso bolso para gastarmos como bem quisermos. Vendida na forma de “filantropia sensível”, aquela cota de bondade é na verdade a derrota do espírito dos envolvidos na trama, cuja temporada os liberais lutam para ver encerrada, para dar vez a novas histórias.

O povo merece mesmo espetáculos melhores.

AÇÃO ABSURDA DO DAER CONTRA A BUSER É A “CARA DO BRASIL”

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Opinião

As atuais narrativas da política fiscal gaúcha. Por Roberto Balau Calazans

“Como político tradicional, o atual governador soube articular uma rede de partidos políticos em torno do seu projeto. Foi habilidoso em vender um produto aos eleitores, graças ao uso do marketing político”

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Roberto Balau Calazans * / Mestre em Economia UFRGS. Auditor Fiscal aposentado da Sefaz/RS

O centrismo e a esquerda light brasileira têm criado recorrentes narrativas na política nacional, talvez pela densidade intelectual de suas lideranças. No plano econômico, apresentam-se como a elite acadêmica e formuladora dos acertos do Plano Real. Obteve êxito em reduzir a inflação em 1994, mas aumentou a carga tributária, os juros nominais, a dívida pública e os gastos sociais. FHC demonstrou estranha satisfação na entrega da faixa presidencial a Lula. Foram e são os preferidos do mercado financeiro. A política monetária de juros reais elevados sempre foi o receituário básico de sua política econômica. A esquerda radical praticou a mesma política monetária, que foi o paraíso dos juros nominais. Os gastos sociais foram migalhas vis-à-vis aos lucros do sistema financeiro.

Em oposição aos radicais, a ala light criou a narrativa de que eram os representantes da moderação, da eficiência e da moralidade na coisa pública. Até hoje, o Brasil paga o preço político pela vitória da reeleição em todos os níveis. O castelo da moralidade e da eficiência administrativa começou a ruir quando algumas lideranças foram acusadas pelo Ministério Público. Com o advento do bolsonarismo, houve a revelação histórica, algo que a muito se especulava. Não há diferenças substanciais entre radicais e centristas. A foto do jantar entre FHC e Lula é de um simbolismo impressionante. No caso gaúcho, a vitória eleitoral de Eduardo Leite e a manutenção das elevadas alíquotas de ICMS deve-se, em parte, à esquerda. Agora, até o próprio Lula pede para elevar o tom contra a administração estadual.

Como o radicalismo perdeu referência nas terras gaúchas, a retórica discursiva encontrou um novo herdeiro. Define-se aqui narrativa como o discurso articulado que penetra nas instituições ideológicas da sociedade civil, de forma lenta e gradual, criando as condições para a imposição de uma visão, ainda que seja plenamente verdadeira. Infelizmente, o uso do expediente é uma realidade no País.

Por exemplo, o jornalismo deixou de ser informativo para ser militante e disseminador de interesses escusos (ou não). Em 1000 dias da atual administração federal, alguns jornalistas (locais e nacionais) ganharam a vida escrevendo 1000 colunas dizendo sempre que estava tudo errado. Para alguns, o objetivo é participar do mainstream, e outros é puro “ódio do bem”. Tal assertiva parece ser provocativa, mas não é. É realista para quem se preocupa com as falsas imagens.

Como político tradicional, o atual governador soube articular uma rede de partidos políticos em torno do seu projeto-administrativo. Foi habilidoso em vender um produto aos eleitores, graças ao uso do marketing político. Contudo, é necessário desvendar algumas falhas do seu discurso — a distância entre a narrativa e os fatos.

Voltando ao caso do RS, sejamos bem precisos. O ajuste fiscal das contas estaduais foi aprofundado pelo atual governo, seguindo diretrizes idênticas ao do anterior. Estão ocorrendo fatores conjunturais (inflação e venda de estatais), aliado à competência política, que ajudam as contas fiscais.

Aqui merece ser feito um paralelo com a administração Yeda Crusius. Ela foi favorecida pelo impacto do boom das commodities, mas teve que enfrentar uma forte oposição da burocracia federal. A operação com o Banco Mundial quase foi inviabilizada. Não houve nenhum apoio financeiro substancial da União. Nesse sentido, pode-se afirmar que seu trabalho como gestora foi mais intenso do que o atual, como ficou bem demonstrado com a introdução da substituição tributária naquele período.

Como político tradicional, o atual governador soube articular uma rede de partidos políticos em torno do seu projeto-administrativo. Ele foi habilidoso em vender um produto aos eleitores, graças ao uso do marketing político. Contudo, é necessário desvendar algumas falhas do seu discurso — a distância entre a narrativa e os fatos.

Do ponto de vista fiscal, o atual governo se elegeu com um discurso calcado em um diagnóstico financeiro equivocado, seduzindo os gaúchos pelo voluntarismo. “Bastava se levantar da cadeira e gerir melhor as contas”, que belo produto do marketing!

Dada a ambição, foram assumidas atitudes inapropriadas contra quem estava trabalhando, como o então governador Sartori. É bom relembrar o que houve:

• menosprezo às dificuldades do fluxo de caixa do Estado;

• falta de entendimento do porquê houve a elevação de alíquotas do ICMS e a necessidade de sua manutenção em 2019;

• falta de clareza em relação ao Regime de Recuperação Fiscal.

Em 2020, tal prática se repetiu durante o período da pandemia do Coronavírus. O Tesouro Nacional enviou R$ 2,205 bilhões ao RS, sendo R$ 1,945 bilhão em recursos livres e R$ 260 milhões para à Saúde. Permitiu também que a dívida refinanciada com a União não fosse paga em 2020 e 2021. Sugiro a leitura da seguinte apresentação, de Darcy F. Carvalho dos Santos, em que é detalhada forma como a folha salarial foi colocada em dia e mostra que foram transferidos pela União um total de quase R$ 3,0 bilhões: https://financasrs.com.br/wpcontent/uploads/2021/05/Como-o-governo-colocou-em-dia-a-folha.pdf

A iniciativa de controlar gastos públicos não representa novidade no espectro da política fiscal. Privatizar trouxe receitas extraordinárias e alívio ao caixa do Tesouro Estadual, porém, são conjunturais. Reformar a previdência trará a redução da expansão dos gastos com inativos/pensionistas.

Em meados de 2020, a principal narrativa do governo surge logo após ao recebimento dos recursos da União. Grosso modo, constituiu-se em afirmar que os salários foram colocados em dia devido à ação exclusiva da gestão. Nada mais equivocado, pois a União teve participação decisiva. O reconhecimento pela ajuda, como era de se esperar, nunca acontecerá.

Ao longo do ano, houve a ação articulada com outros governadores contra as diretrizes do Governo Federal e o incentivo à redução das atividades econômicas, expressa na queda do PIB estadual em 2020. Note-se que o governador mineiro, mesmo se opondo as diretrizes do Ministério da Saúde, teve uma atitude mais diplomática, talvez mais preocupado com os interesses do Estado do que com as futuras pretensões eleitorais.

Outra narrativa é relacionada às alíquotas de ICMS. Primeiro, durante a eleição, não era necessário manter as alíquotas definidas por Sartori. Depois dela, veio o vai e vem do projeto da Reforma Tributária Estadual, ora propõe, ora retira. Finalmente, em meados de 2021, surge a narrativa de que o ajuste fiscal propiciou à redução de alíquotas. Novamente, a apologia aos méritos do governo, quando isso foi uma decisão da Assembleia Legislativa.

Em 2021, os resultados fiscais parciais são excelentes. Foram obtidos pelo controle dos gastos públicos e refletem os efeitos positivos das Reformas Previdenciária e Administrativa implementadas. A iniciativa de controlar gastos públicos não representa nenhuma novidade no espectro da política fiscal. Privatizar trouxe receitas extraordinárias e alívio ao caixa do Tesouro Estadual, porém, são conjunturais. Reformar a previdência trará a redução da expansão dos gastos com inativos/pensionistas. Contudo, o gasto com pessoal está caindo lentamente e representa 70% da receita líquida. Um eventual aumento do piso do magistério será um problema adicional nas contas públicas. Mais 9 anos sem reajustes salariais será sustentável? Provavelmente, seria consistente num modelo de quadro negro com queda contínua de salários reais, aumento de receitas e transferência para juros. Enfim, o indicador do RS continua a ser “D” pelo conceito do Tesouro Nacional.

Cabe indagar se tais ações administrativas foram responsáveis pelo impressionante crescimento do ICMS em 2021 e pelos indicadores favoráveis das contas fiscais? A resposta não transparece no discurso oficial, pois segue a narrativa de que o ajuste foi realizado por obra interna. O que não é dito é que, em 2020, o responsável pelo crescimento das receitas dos governos estaduais foi a inflação, captada na expansão do ICMS. As medidas fiscais ortodoxas foram importantes, mas não determinantes. Em 2021, a aceleração da inflação decorre pelo aumento dos preços dos combustíveis, da energia elétrica, da gasolina e dos alimentos, elevando, assim, as receitas federais e o ICMS nos estados. Esta não é uma opinião particular, ela está respaldada pelo Tesouro Nacional. Portanto, a realidade não é o que o discurso diz, é necessário filtrar as apologias naturais na política.

“Em 2020, observa-se um período de forte elevação na receita dos Estados, que, entretanto, não parece estar associada a uma política tributária mais eficiente e sim ao aumento de preços que compõem a base tributária do ICMS. Desse modo, é preciso ter cautela com os sinais positivos vindo do aumento da arrecadação tributária estadual. Apesar de que alguns Estados terem aprimorado sua gestão tributária em 2020, a maioria dos Estados mantém níveis elevados de benefícios fiscais e alguns inclusive aumentaram esses benefícios durante a pandemia. Quando o aumento de preços for reduzido, a dinâmica estrutural das receitas pode alterar a trajetória de crescimento. Dessa forma, é necessária cautela para ampliar gastos continuados nesse momento como resposta à maior arrecadação, havendo necessidade de aguardar para verificar se o aumento é estrutural ou apenas conjuntural”. (Boletim de Finanças dos Entes Subnacionais 2020, Indicadores de inflação e Previsão do ICMS, Tesouro Nacional).

Por fim, entendo que o método do marketing político, o uso articulado e recorrente das mídias de aluguel, não favorece ao interesse estratégico da sociedade gaúcha. Leva ao rebaixamento da prática-crítica na política estadual.

Para um Estado que já gerou representantes, como Paulo Brossard, Leonel Brizola, Pedro Simon, Bernardo de Souza etc., estamos ficando restritos a um grupo político que usa métodos tradicionais de poder: interesses pessoais e o conhecido toma lá, dá cá.

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