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Opinião

O que eu senti vendo uma fotografia do Parque Una

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Outro dia me deparei com uma projeção fotográfica de quando estiver concluído o Parque Una, bairro planejado pela Idealiza Urbanismo, em construção atrás do shopping Pelotas.

A imagem me prendeu a atenção como se tivesse chamado “ei!” Ela capta a atenção, creio, por causa de uma “estranheza”.

É uma foto artística, pois cumpre uma das funções da arte que merece menção: mais que entreter, ela desconstrói, ainda que por um instante, a em geral estúpida pré-formatação dos sentidos que nos impomos por uma necessidade atávica de fugir da loucura.

A estranheza veio de um efeito temporal, e algo mais, que falarei adiante.

Na imagem, vemos “como ficará um empreendimento no futuro”. Mas, como a fotografia é em preto e branco, parece que estamos vendo hoje uma cena de muitos anos atrás, daquelas que encontramos sob a poeira em baús e bibliotecas.

Ocorre que no passado pelotense nunca um bairro foi planejado como o Una.

A tal estranheza artística que senti na foto aumenta mais porque o ponto de vista não é atual. É como se o observador tivesse sido transportado para 2060 e, de lá, olhasse um registro de 2030, considerando que o preto e branco não venha a ser abandonado.

Eu não comecei este texto pelo começo.

Na verdade, a primeiríssima coisa que senti vendo a foto foi o contraste entre o Una e a cidade. Pode soar exagerado, mas o impacto foi parecido com ver um templo margeado por amontoados irregulares de casarios feitos daquela pedra árabe cor de areia, sem qualquer personalidade, ou melhor, com a personalidade opaca do deserto.

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Não se trata, porém, de “imponência arquitetônica, ostentação de poder ou exaltação do velho luxo europeu”, inspirações que moveram, por exemplo, nossos ricos charqueadores em termos estéticos, em tempos longínquos.

As construções elevadas à categoria de memória artística na cidade são de uma época distante – nossos tão garbosos casarões centenários. Aliás, parte deles foi tombada nesta semana pelo Patrimônio Nacional.

Não deixa de ser uma ironia que logo Temer, um abominável político do passado, ao ponto de sentir prazer no emprego de mesóclises, tenha sido a autoridade a reconhecer o talento dos nossos charqueadores para imitar a arquitetura em voga no velho mundo.

Sendo sincero, às vezes penso que o motivo para o belíssimo plágio predial ocorreu depois que os charqueadores, em meio aos seus matadouros, capatazes e todo o sangue, passaram a considerar vulgar o cru ofício de abater bois, salgar a carne e vendê-la como alimento aos escravos, em perdidas viagens de navios mercantis pela costa, e resolveram amenizar os sentidos.

Tenho uma boa relação com os proprietários do Una, e os admiro. Eu os acho inteligentes, não no sentido pétreo e presunçoso, mas no sentido líquido e corrente, como fibras óticas que vivem para a luz. Sou suspeito, portanto, para elogiá-los. Mas hoje em dia, depois das visitas que fiz ao Parque, de pesquisar o bairro e das entrevistas que realizei com eles, eu os compreendi melhor.

No passado eu os critiquei quando inauguraram em Pelotas os condomínios fechados. Eu tinha implicância com os muros, como tantos, porque via neles um sintoma da falência da vida em sociedade. Um negócio a que na época eu me referia como “Vaticano”, um ENCLAVE, mas que poderia ter chamado de “Ilha de Refugiados”, um produto do fim dos tempos, entende?

No fundo, era uma bobagem minha. Muro é o que mais tem por aí, principalmente os invisíveis. Por alguma exótica razão, eu apenas insistia em não desistir de um mundo ideal.

Por outro lado, mesmo com a grande quantidade de aramados que nos apartam da plena felicidade, entendi o motivo de eu simpatizar tanto com o Parque Una. Porque neste bairro a Idealiza desistiu de construir e vender refúgio. No Una, não há muros de Berlim. O bairro foi pensado no sentido contrário, de fazer frente ao caos urbano, combatê-lo com uma sugestão de como poderia ser o planejamento de uma cidade se todos compreendessem o valor da ideia.

Aí é que está o “pulo do gato” de uma vida, acho. Resistir a uma solução defensiva. Contrapor-se a algo ruim ou insatisfatório.

Pelo que entendi, o Una não tem nada a ver com tombamento, porque o principal patrimônio para eles, embora seja material, um dia morre e é esquecido: as pessoas, seu bem-estar.

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Se há uma pretensão no negócio, ela não é excludente como um templo ou um velho casarão tombado. Trata-se de coisa muito diferente e mais ambiciosa, no melhor sentido.

No mínimo, a Idealiza vende competência!

Jornalista. Editor do Amigos. Ex-funcionário do Senado Federal, do Ministério da Educação e do jornal Correio Braziliense. Prêmio Esso Regional Sul de Jornalismo. Top Blog. Autor do livro Drops de Menta.

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Cultura e diversão

O homem do norte. Por Déborah Schmidt

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O Homem do Norte segue a história de vingança do príncipe Amleth (Alexander Skarsgård) que, quando criança, testemunhou seu pai, o rei Aurvandil War-Raven (Ethan Hawke), ser brutalmente assassinado por seu irmão, Fjölnir The Brotherless (Claes Bang), que ainda sequestrou sua mãe, a rainha Gudrún (Nicole Kidman). Vinte anos depois ele retorna determinado a salvar sua mãe, vingar seu pai e matar seu tio.

Um dos diretores mais interessantes da atualidade, Robert Eggers se destacou logo com seus primeiros filmes, os excelentes A Bruxa (2015) e O Farol (2019), duas produções de terror aclamadas. Para seu próximo projeto, o cineasta saiu de sua zona de conforto e embarcou em uma trama de ação e aventura, em uma ambiciosa saga viking. O roteiro de Eggers e Sjón é baseado na lenda de Amleth, conhecida como inspiração para a criação da clássica peça Hamlet, de William Shakespeare. O longa explora uma história típica dos nórdicos antigos, acertando no drama familiar e na jornada de vingança.  

Como o protagonista, Alexander Skarsgård demonstra toda sua entrega (física, principalmente) ao viver a versão adulta do guerreiro Amleth. Revelada em A Bruxa, a talentosa Anya Taylor-Joy tem um papel coadjuvante como Olga, mas rouba a cena com seu magnetismo e por estar ligada aos elementos místicos do longa, assim como os personagens de Willem Dafoe e Björk.

Visualmente espetacular, a direção de fotografia de Jarin Blaschke, que trabalhou com Eggers em seus dois filmes anteriores, se destaca pela composição de ambientes naturais. Se tratando de um épico viking, a produção aposta em cenas de lutas com violência e selvageria, e também mostra autenticidade e fidelidade na impressionante recriação do visual e dos costumes vikings.  

O Homem do Norte detalha com perfeição uma saga viking, em uma história de vingança e brutalidade que flerta com o misticismo. Um espetáculo artístico e grandioso.  

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Especial

DiCaprio, política e atores

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Com sua venenosa língua hiperbólica, o escritor Truman Capote dizia que “atores são burros.” Exemplificou com John Gielgud (foto), grande ator shakespereano. “É maravilhoso no palco. Mas é uma voz.”

Para ele, quanto melhor o ator, mais burro é.

Se entendo o exagerado Capote, ele quis dizer que atores, seres emocionais, não possuem pensamento estruturado. Suficientemente crítico ou científico, se preferir. Isso parece verdadeiro quando “artistas” falam de política. É comum defenderem “boas causas” genericamente, sem considerar as especificidades das situações.

Leonardo DiCaprio foi às redes elogiar “o compromisso da Anitta com a democracia.” Também pediu para “escutarem a cantora e tirarem seu título de eleitor.” Mais um exemplo, parece, do que Capote quis dizer.

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Opinião

Direto com a dona. Por Montserrat Martins

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Maria decidiu resolver o problema: foi falar diretamente com a nova mulher do seu ex-marido, para resolver o tratamento dispensado às duas filhas quando visitavam o pai, a madrasta e a nova irmã delas, do novo casamento. Foi uma conversa com todo mundo junto, Maria, as duas filhas, ex-marido, nova mulher e filha, tudo isso na casa da nova companheira.

A conversa começou tensa, é óbvio. O ex-marido parecia assustado. A nova mulher, tensa. Maria, determinada, foi direto ao ponto: estava ali para que suas filhas tivessem o mesmo tratamento do pai que a nova filha tinha, quando das visitas ao pai, e para que ficasse claro que ela não queria o ex de volta, que uma coisa não tinha nada a ver com a outra: existe ex casal, mas não existe ex pai. E disse mais, hoje existe uma nova criança, com o pai em casa, vai que amanhã não esteja, ele vai deixar de cumprir as suas obrigações de pai?

João, então, tentou falar grosso com a ex, mas foi desautorizado pela atual. A anfitriã, mesmo tensa, pareceu ter assimilado o recado, pois a ex deixou bem claro seu desinteresse pelo homem, fora lá cobrar o papel de pai. E que amanhã (quem sabe dizer?) poderia ser a situação da ex, lutar pela sua filha ser bem tratada pelo pai.

Com João “enquadrado”, tendo de se expressar com respeito, a conversa então foi evoluindo, ficando bem claro que não se tratava do passado, mas do futuro. O homem não estava sendo disputado pelas duas mulheres, pelo contrário, passou a ser cobrado pelas duas em suas responsabilidades.

Maria encontrou a solução, falando “direto com a dona”, nesse tipo de drama repetido, que vejo sempre no meu trabalho, quando me pedem avaliações psiquiátricas de partes em conflito nas Varas de Família ou da Infância e da Juventude. Na grande maioria dos casos não há nenhum transtorno psiquiátrico nessas pessoas, o transtorno que está por trás de suas brigas ferozes são de emoções humanas muito básicas, a começar por ciúmes e insegurança.

Nossa cultura machista tem como característica homens “falando grosso” com a ex-mulher e obedientes à nova companheira, com a qual não querem se incomodar. É um padrão de comportamento repetitivo, que chega a chamar a atenção quando não segue esse padrão, quando há madrastas não ciumentas ou inseguras com os filhos da ex. (O mesmo vale também para padrastos ciumentos).

Do machismo aparente, para a sociedade ver, dentro de casa esses “valentões” são tão submissos à nova mulher que chegam a abandonar filhos por medo dos ciúmes da nova companheira. Maria intuiu isso perfeitamente, por isso foi falar “direto com a dona”, com quem ela entendeu que estava influenciando o pai de suas filhas.

Maria me contou sua história sem ter sido orientada por nenhum médico, nenhuma psicóloga, nem por assistente social. Foi sua intuição, observação, reflexão, capacidade de análise e sabedoria que a fizeram encontrar essa solução. Não estava dando certo falar com o ex, ele não lhe escutava, ela decidiu então falar com quem tinha poder de decisão, com a nova “dona” dele.

Claro que podia ter dado errado, mas sua clareza de pensamento, sua sinceridade de intenções, fizeram com que a outra a compreendesse e confiasse nela. Não é uma receita de bolo, que cada uma possa fazer em casa sem riscos. Mas é um caminho excelente para quem souber fazer assim, ir falar direto com a “dona”.

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Esse tipo de cultura primitiva, onde homens são colocados contra seus filhos pelas atuais mulheres, traz um enorme prejuízo para toda a sociedade. Crianças e jovens rejeitados crescerão inseguros, depressivos, ou revoltados, conflitivos, expandindo seus sofrimentos familiares em suas relações sociais. É um padrão de comportamento muito, muito repetitivo mesmo, é ainda o padrão dominante numa sociedade que deveria ser mais civilizado. Por isso mesmo, “temos de falar sobre isso”. Obrigado pelo exemplo, Maria.

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