Editorial
A cogitação inédita de Eduardo Leite sobre o tema da “privatização”
Eduardo Leite deu entrevista ao jornal Metro “cogitando” privatizar o Banrisul. É inédito ouvir o verbo “privatizar” conjugado pelo ex-prefeito. Quando dirigia a prefeitura, e mais uma vez o boato sobre a privatização do Sanep ganhou força, o tucano logo tratou de refutá-lo, como se fosse proibido. O Sanep continuou, até hoje, nas mãos dos […]
Eduardo Leite deu entrevista ao jornal Metro “cogitando” privatizar o Banrisul. É inédito ouvir o verbo “privatizar” conjugado pelo ex-prefeito.
Quando dirigia a prefeitura, e mais uma vez o boato sobre a privatização do Sanep ganhou força, o tucano logo tratou de refutá-lo, como se fosse proibido. O Sanep continuou, até hoje, nas mãos dos partidos políticos que o apoiaram e continuaram a apoiar Paula, primeiro PP, agora PTB.
A Rodoviária, igualmente, permaneceu pública, além de cabide de emprego para partidários, como no Sanep. Pelotas, diga-se, é o único município gaúcho que não privatiza nem terceiriza por concessão seu terminal rodoviário, apesar da desoladora prestação de serviços.
De repente, Leite começou a conjugar o “temível verbo”. Note, porém, que ele fala em privatização no âmbito das hipóteses. A gente fica sem saber se é uma estratégia eleitoral, para acenar à “direita”, ou se é uma convicção sua sobre a gestão do Estado.
O problema da cogitação é não superar a si mesma. Como as almas das crianças pagãs, não batizadas, a cogitação vaga no limbo.
Tucanos fizeram fama por viver em cima do muro, pouso dos políticos que não perdem de vista o céu enquanto escalam as alturas e dos intelectuais sensíveis demais para admitir enganos.
Seria louvável se Eduardo dissesse claramente se é a favor ou contra – conceitualmente e desde já – as privatizações. Para que a sociedade soubesse exatamente de suas intenções. Porque não se trata dele, trata-se de nós.
Editorial
Especulações sobre a demissão de Pablo do Diário Popular
Última atualização: 10h05 de 19/09/2018 Pablo Rodrigues não é mais funcionário do Diário Popular. O jornalista trabalhou 12 anos no jornal, sete deles no cargo de editor-chefe. Em março passado, havia pedido para deixar a função de editor-chefe, quando passou então a ficar responsável exclusivamente por manter sua coluna de opinião chamada MAGIS+, uma das […]
Última atualização: 10h05 de 19/09/2018
Pablo Rodrigues não é mais funcionário do Diário Popular. O jornalista trabalhou 12 anos no jornal, sete deles no cargo de editor-chefe. Em março passado, havia pedido para deixar a função de editor-chefe, quando passou então a ficar responsável exclusivamente por manter sua coluna de opinião chamada MAGIS+, uma das mais lidas no jornal.
Assim que li a primeira coluna dele, inaugurada em 2015, ela me pareceu destoar da linha editorial do jornal, que fez fama pelo tom mais ou menos morno. Com o novo espaço, o editor passou a utilizar com afinco o exercício crítico, algo com que Pelotas sempre teve dificuldade.
Inicialmente semanal, em março passado a coluna passou a ser publicada três vezes por semana. De lá para cá, coincidentemente, se intensificaram as pressões oficiais contra as abordagens que Pablo fazia.
Na hora em que eu li a primeira MAGIS+, lá em 2015, pensei comigo, conhecendo o ambiente local: “Pablo começa neste momento a deixar o jornal”. Pois neste dia 18 de setembro, deparo com a notícia de sua demissão, postada por ele em forma cortês, no facebook. O tom prevalecente é o de agradecimento ao empregador. Em um trecho, a mensagem soa dúbia, quando diz:
“Asseguraram-me que minha demissão não é política. Sendo ou não política, resta uma certeza: a minha saída empobrece a indispensável pluralidade de opiniões que um jornal deve ter”.
A notícia da demissão foi pronunciada ao jornalista pela herdeira-proprietária do DP, arquiteta Virgínia Fetter.
Para quem observa a cena pública local, é justo ter dúvidas sobre a alegação de Virgínia.
Considerando como verdadeiro o motivo da “contenção de despesas”, o jornal deve estar enfrentando uma crise financeira aguda. A demissão de Pablo não é caso isolado. O jornal, que teria por volta de 200 funcionários, vem demitindo profissionais de várias áreas, em pequenos lotes.
O DP parece atravessar uma crise típica das empresas que publicam impressos, por causa do progressivo encolhimento do número de assinaturas e proporcional redução do número de anunciantes, que cada vez mais vêm abandonando o papel pela internet, muitas vezes anunciando exclusivamente, por conta própria, nas suas próprias páginas nas redes sociais, inclusive com impulsionamentos de postagens no facebook.
Até onde pude apurar, a coluna de Pablo era muito lida, como ele escreveu no face. Justamente por esse motivo, a página era patrocinada, e o patrocinador não retirou o patrocínio, o que enfraquece o motivo oficial.
Pablo respondia pela única coluna que era francamente crítica a ações e omissões da prefeitura, como fez no caso dos exames de pré-câncer. Criticou muitas vezes a prefeitura, algumas vezes criticou signos conservadores, como o projeto Escola Sem Partido, que chegou a ser apresentado para virar lei pelo vereador tucano Enéias Clarindo (depois retirado). Criticou ainda os reacionarismos de Bolsonaro, no estrito sentido da palavra.
Ele fez tantas críticas naquele viés que é capaz de os menos lúcidos terem interpretado suas abordagens como típicas de uma mente vermelha, quando no fundo elas não eram mais que a expressão da cidadania, humanidade e liberdade de pensamento que deve ter um colunista de “Opinião”.
Outro indicativo… Corre o boato de que, dias antes de demissão de Pablo, um misterioso homem de baixa estatura, calvo no telhado superior e com fios de neve derretida nas laterais, procurou a direção do jornal para reclamar do jornalista. Maneiroso, o homem agiria segundo a seguinte estratégia: nunca pediria a cabeça de ninguém diretamente, pois soaria baixo, algo que sua presunção não toleraria.
Em vez de pedir cabeças, o homem fez fama como “Reclamão periódico” do periódico, inclusive por telefone. Por essa trilha, de grão em grão, a coisa teria contribuído para levar a situação a um ponto em que a Galinha teria enchido o papo.
Pode ser, pode não ser… São especulações comuns em horas como essa, em que veículos de comunicação industrialmente caros para se manterem se tornam cada vez mais dependentes de verba publicitária de governos para sobreviver. Leia-se: expressivos volumes provenientes de impostos que pagamos.
É preciso muita calma nessa hora. Os próximos passos devem fornecer mais elementos para elucidar melhor a natureza das “contenções” do jornal e se elas estão relacionadas.
Que as contas do Diário Popular andam na iminência do vermelho parece óbvio. A questão que sobraria é saber se, por motivo do encolhimento da receita, o jornal teria ou não decidido não desagradar governos (geralmente anunciantes seguros), como a prefeitura, da qual o DP recebe verba publicitária, assim como do governo do estado e do governo federal, dos quais também recebe verba em forma de publicidade oficial.
Por suposto, no sentido comercial lógico, seria bom para a saúde econômica de um jornal se ele amenizasse o tom da cobertura do Executivo local, inclusive, por exemplo, protegendo Eduardo Leite, que está indo bem nas pesquisas para governador. Mal não faria também maneirar nas críticas à Bolsonaro, que já está no segundo turno.
Não que seja assim, mas mal não faria, comercialmente, num momento de crise.
Lembre-se: pelos teor e tom, os textos de Pablo não eram submetidos ao Departamento Comercial; por suas manifestações, ele sempre escreveu com liberdade, pautado por princípios iluministas, da prevalência da razão sobre as conveniências. É sabido que seus artigos provocavam reações na prefeitura, com a prefeita Paula Mascarenhas chegando a visitar pessoalmente a proprietária do jornal, para pedir “maior equilíbrio” nas abordagens.
A postagem em que Pablo dedilhou o anúncio da sua demissão do DP havia recebido, até 10h05 desta quarta-feira (18), 812 reações, uma esmagadora maioria de pessoas solidárias a ele e, em alguns casos, como fez o radialista Edson Planella, aludindo à política e à censura para explicar a saída do colega. Além daqueles cliques, a postagem, até aquela hora, havia recebido 241 manifestações de solidariedade na forma de comentários.
Quando foi igualmente demitido neste ano, da Rádio Universidade (RU), Planella foi ao facebook afirmar que sua demissão havia ocorrido depois de pressões da Prefeitura e da Reitoria da UCPel, por críticas dele ao Executivo local, anunciante da RU. Corajosamente, Pablo publicou um desagravo ao colega via face, criticando duramente a Prefeitura e à Reitoria, creditando a eles a responsabilidade pela demissão do radialista e se solidarizando com ele.
“Falo por mim”, ressaltou Pablo no texto.
Agora foi a vez de Planella devolver a solidariedade. Ele comentou na postagem em que Pablo anuncia sua saída do DP:
“Fazer jornalismo com independência em Pelotas é o maior desafio, vivemos a época dos senhores feudais, sempre tivesses uma postura ética, correta e com princípios, fosses arrojado em tudo que coordenasses. Seria mais fácil ceder pressões e evitar perturbações, mas o verdadeiro jornalista faz o que fizesses, cabeça erguida e sou teu eterno admirador”.
Não é possível afirmar com segurança que Pablo e Planella foram abatidos por franco-atiradores de cores partidárias em disputa por mais poder, embora nos bastidores seja a versão que prevaleça. No máximo, podemos hoje procurar enxergar a verdade na análise do conjunto dos fatos e sinais.
Por ainda falar nisso, outro sinal: domingo passado, dia 16, dois dias antes de degola de Pablo, a Coligação de Eduardo Leite a Governador foi à Justiça Eleitoral contra o Amigos de Pelotas, acusando o site de veicular conteúdos prejudiciais à imagem do candidato e requerendo que apagássemos seis postagens (leia mais aqui).
O Amigos de Pelotas tem estrutura mínima, reduzida a mim e a poucos colaboradores tão espontâneos quanto generosos. Mesmo assim, além de pedir a exclusão das postagens, a Coligação de EL ainda requereu que eu pague R$ 30 mil a título de indenização.
Com os fatos e as circunstâncias citadas neste post, é possível estabelecer uma conexão, um nexo e formar um juízo inicial.
Cedo ou tarde, a verdade aparece, mesmo que aos poucos. Quando isso acontece, todos ficamos menos hipócritas e mais alertas para a realidade que nos cerca, por vezes manifesta na pretensão do sufocamento.
Minha solidariedade ao Pablo, ao Planella e a todos os que, em respeito à dignidade da malfadada profissão de jornalista, se importam com a vida e com quem dá valor a ela.
Comportamento
Pensando aqui sobre a ‘representação de Eduardo Leite’
Pensando aqui sobre a Representação movida pela Coligação de Eduardo Leite a Governador (“O Rio Grande da Gente”) contra minha empresa (Que Sou Eu, um só Indivíduo), para retirada de seis postagens do site Amigos de Pelotas, que dirijo há mais de 10 anos… Todos têm o direito de representar contra jornalistas. Fazia muitos anos […]
Pensando aqui sobre a Representação movida pela Coligação de Eduardo Leite a Governador (“O Rio Grande da Gente”) contra minha empresa (Que Sou Eu, um só Indivíduo), para retirada de seis postagens do site Amigos de Pelotas, que dirijo há mais de 10 anos…
Todos têm o direito de representar contra jornalistas. Fazia muitos anos que não ocorria comigo. Assim que fui citado, com prazo de 48 horas para cumprir a liminar que mandava apagar parcialmente dois posts dos seis pretendidos (os quatro demais seguem publicados, com anuência do TRE) e constituir advogado para a defesa, segui a determinação judicial, acatando a decisão do desembargador Rômulo Pizzolatti.
Ok. A ver à frente, agora, o resultado final.
Por ora, fico num detalhe dessa história que suscita divagações. Na representação que moveu, a Coligação de Eduardo Leite pede – também – que eu pague multa de R$ 5 mil por cada postagem questionada, o que daria R$ 30 mil para efeito de quando forem analisadas no mérito. Trinta vezes mil, 30 dinheiros, como na Bíblia, ensinada em cursos de formação como Emaús, onde o jovem discípulo da palavra Eduardo Leite um dia estudou.
Olhando pela janela aqui de casa, cuja vista não é muito agradável, continuei na divagação:
“Ainda por cima o staff do agora político EL quer meter a mão no meu pobre bolso!” A “culpa” só pode ser do cachimbo, que entorta a boca, no caso a mania estatal de abocanhar o resultado do suado labor do cidadão.
Não bastasse o IPTU aumentado por Leite que pago, e mais a taxa de lixo, que EL disse que não criaria na cidade, mas criou, no apagar das luzes de sua gestão como prefeito, continuo a ser atingido pela mesma sanha arrecadadora, agora em nível judicial eleitoral, por advogados remunerados, presumo, por todos os pagadores de impostos, eu inclusive, um dinheirão distribuído às agremiações políticas através dos fundos partidário e eleitoral (nosso bolso).
Eduardo Leite e eu não somos estranhos um ao outro.
Por exemplo, por ter sido eu um dos primeiros a reconhecer que ele destoava para melhor na paisagem lunar que continua a ser a Câmara de Vereadores, a meu convite, ele aceitou ser colunista quinzenal do Amigos de Pelotas durante o Ano da Graça de 2010, no tempo em que vivia do salário da vereança.
Para manter certo equilíbrio, convidei também, a escrever alternadamente com Leite, o vereador Ivan Duarte, do PT. Mas Ivan desistiu logo depois de começar, e eu, dando por acertado o princípio, pelos doze meses seguintes publiquei Eduardo, sozinho, sem contraponto.
Como eu dizia, o jovem tucano pelotense me conhece. Talvez o certo seja dizer que ele me conhece na proporção inversa de que eu imagino que o conheça, pois, como você pode supor, em se tratando de um político, o trato de Eduardo Leite, oposto ao meu, nunca deixou de ser fugidio, espectral, por certo não apenas comigo.
Mesmo sendo as coisas como elas são, tentando acreditar que por baixo das hibridas características límbicas de um político havia no fundo uma pessoa do bem, mantive minha confiança em EL, procurando, por muitos anos ainda, encontrar pontos em comum entre ele na política e o Amigos de Pelotas no jornalismo: duas expressões da individualidade integrantes de um mesmo espírito responsável por injetar ao menos algumas rajadas de oxigênio puro no ambiente da cena pública da cidade.
Hoje as coisas estão diferentes, mas por muitos anos eu via EL por aquele prisma. Ele me parecia a materialização física e espiritual de uma lufada de ar fresco há muito ansiada pelas novas gerações, na carcomida e restritiva paisagem local, do mesmo modo que vejo hoje em dia o reitor Pedro Hallal, da UFPel, que vem se saindo muito bem no cargo, e como – infelizmente – deixei de ver a prefeita Paula Mascarenhas, que se vem revelando, administrativamente, professora de uma monótona mediocridade. Em benefício dela, é uma sentença que ainda causa incredulidade a muitos, apesar do crescimento da impressão de que, como Dilma, o destino da professora é o mesmo de um poste ou, ao menos, um degrau da escada.
Fico pensando que eu devo ser mesmo um sujeito muito ingênuo, um personagem daqueles contos que os pais nos leem ao pé da cama quando somos crianças, por pensar que a esperança é um merecimento.
Nesta altura, com base na experiência vivida, eu diria que parece ser impossível não se decepcionar com as pessoas, sobretudo as jovens temporalmente investidas de um cargo eletivo, quando passam a se comportar como políticos da velha guarda, quando já se estão dissipados todos os vestígios da esperança que um dia se teve em sua suposta coragem para romper com velhas estruturas em nome de uma autêntica renovação da vida, como prega o Evangelho que, evidentemente, não é o de São Judas.
Judas virou o cocho, logo depois que perdeu a fé. Pelo que tenho visto, outros ao menos nunca tiveram fé, sobrevivem no automático. Talvez por se terem dado conta de que a vida é muito mais porca do que ensinam nos cursilhos às jovens almas sôfregas por trilhar o caminho do belo, rumo ao Paraíso, bem calados sobre o assunto.
Comportamento
Eduardo Leite diz “querer modernizar a gestão pública gaúcha”. Há controvérsias
Título de entrevista do ex-prefeito Eduardo Leite, do PSDB, postulante ao Piratini, ao Diário Popular desta segunda-feira (10): “Temos que modernizar a gestão pública”. Seria ótimo, mas a desconfiança anda impossível. Afinal, nos seis anos de gestão tucana em Pelotas, quatro com Leite na cadeira de prefeito e quase dois anos com Paula Mascarenhas, sua […]
Título de entrevista do ex-prefeito Eduardo Leite, do PSDB, postulante ao Piratini, ao Diário Popular desta segunda-feira (10): “Temos que modernizar a gestão pública”.
Seria ótimo, mas a desconfiança anda impossível.
Afinal, nos seis anos de gestão tucana em Pelotas, quatro com Leite na cadeira de prefeito e quase dois anos com Paula Mascarenhas, sua sucessora, é cristalino como água de praia grega que por aqui não houve modernização administrativa alguma.
Pelo contrário, após um período em que parecia assistirmos uma renovação na forma de fazer política, os tucanos locais se renderam ao velho modo paroquial de gestão, baseado no que podemos chamar de “inércia conveniente”, constituída basicamente por três coisas:
- Aparelhamento grosseiro do município por partidários da base de apoio sem preparo adequado para as funções que ocupam, em alguns casos em conflito ético, como na Secretaria de Cidade e Mobilidade Urbana;
- Inchaço do volume de cargos de confiança e, mais grave:
- Protelamento de decisões, aparentemente com receio da repercussão em termos eleitorais.
Aparelhamento
A maioria dos membros de partidos locais é formada por pessoas sem convicção ideológica, sem profissão definida e sem atuação na atividade privada que vê nos partidos apenas um meio de sobrevivência financeira, pelo qual fazem o que for necessário, provavelmente com cínico desencanto. Estamos falando de um contingente de mediocridade pessoal que não ajuda a “emancipar” a cidade, só ajuda a eles próprios e ao poder da hora. São os mesmos rostos há muitos anos, décadas até, umas pessoas obscuras, embora evidentemente simpáticas, que fazem questão de continuarem obscuras, porque essa é a natureza do negócio.
Um teste: Diga rápido, qual foi o secretário ou técnico da prefeitura que se destacou nos últimos 20 anos por sua capacidade? Provavelmente não lembrará, pois a condição para “ser aceito” é não fazer sombra aos atores principais, os prefeitos, cujo maior sonho secreto é mudar da cidade, lá para as bandas de Porto Alegre e Brasília.
Acrescente-se que a maior parte da equipe oficial tem a benção de vereadores, que ficam subservientes aos prefeitos. É um “jogo de estratégia” provincial. Em alguns casos, há membros trazidos não pela mão de vereadores, mas por suas boas relações com o mercado (pessoal do dinheiro), como o setor da construção civil, sempre tratado com consideração pelos governos dos partidos tradicionais, como PSDB, PT, PTB, PP etc.
Conflito ético
Jacques Reydams: conflito ético aceito como normal
O parágrafo acima insere a deixa para lembrar o tal conflito ético mencionado lá em cima, caso do secretário de Cidades e Mobilidade Urbana, Jacques Reydams, do PP. O descendente belga JR é dono de uma empresa que faz fundações para obras de construtoras. Mesmo assim, como secretário de governo [que coisa!], Jacques é responsável na prefeitura por conceder licenças a empreendimentos imobiliários das mesmas empresas que têm como clientes em sua firma de fundações.
Uma vez no cargo, e nas circunstâncias descritas, suas ações criaram um ambiente de mal-estar e desconfiança entre construtores concorrentes, ao ponto de uma construtora local ter feito em 2017 uma denúncia ao Ministério Público, depois que JR tomou uma decisão incompatível com a legislação, em claro favorecimento de outra construtora local específica.
À luz da razão, é uma evidente incompatibilidade ética. Ocorre que os tucanos não veem problema nela, como prova a foto abaixo, em que JR (e também a prefeita e o ex-prefeito) se misturaram aos construtores denunciados pelos concorrentes num convescote promovido às expensas daqueles numa obra, obra aliás sem Habite-se, outra irregularidade, ainda que menor.
Jacques abraçado com construtor em festa deste
Algum crime grave? Não. Só um retrato do Brasil, herdeiro do lusitano legado de mesclar público e privado com a maior familiaridade. Na mesma festa, prefeita Paula aparece numa selfie ao lado da esposa de um dos sócios da construtora denunciada pela concorrente. E o ex-prefeito Leite aparece misturado a todos, batucando um pandeiro, tudo publicado no face da construtora.
Só numa velha administração típica brasileira se verificam cenas de promiscuidade iguais, sem que ninguém fique ruborizado. Eis os tucanos. Lembrou-se das intimidades de Lula e do PT com empreiteiros? Pois é.
Inchaço de cargos de confiança
Agora vamos ao inchaço no volume dos cargos de confiança. Até as pedrinhas das calçadas brasileiras sabem que os cargos de confiança, os chamados ccs, são utilizados, em maioria “esmagadora”, para conter o humor dos legislativos. Pelotas poderia fazer diferente, mas não faz.
Pior que o aparelhamento incompetente é quando um governo decide, mesmo com cerca de 500 ccs, como a prefeitura tem, criar por canetaço mais uma penca deles. Foi o que ocorreu no governo atual, em dezembro de 2017. Da noite para o dia, em vez de reduzir o número de ccs, a prefeitura fez o oposto: pressionando a caneta sobre um pedaço de papel, prefeita Paula caligrafou para os anais da história a criação no precário Sanep, há décadas usado como cabide de emprego de partidários convenientes, de mais 17 cargos de confiança na autarquia.
As novas vagas de ccs no Sanep foram usadas para alojar sobretudo gente do PTB, partido do candidato vice de Leite (Ranolfo Vieira), onerando a folha de pagamento da autarquia de débeis serviços em mais de R$ 2 milhões por ano.
Barriga perdeu a vaga na Câmara, mas foi alojado no Sanep
Um dos beneficiados da lista dos 17 foi “Barriga”, do PTB, depois que o então vereador foi obrigado a deixar a Câmara após reavaliação judicial dos votos do pleito passado (a vaga de Barriga foi ocupada por Sizenando, do DEM).
Sabe lá o que é isso numa cidade carente de serviços públicos aceitáveis? Pois foi assim e tem sido porque a lógica tucana, mesmo que bonita no discurso, é na prática antiga.
Em seu “jogo de estratégia”, eles fazem o que for necessário – o problema é que o jogo é financiado com dinheiro de imposto, aumentado inclusive para fins políticos como este, como fez Leite com o IPTU, e como fez também com a Taxa de Lixo, que o tucano – lembre-se – prometeu “não criar se a Câmara aceitasse aumentar o IPTU”, mas que acabou criando mesmo assim, descumprindo a palavra, no apagar das luzes de seu governo – veja a prova da promessa quebrada, no documento abaixo.
Eduardo Leite prometeu que não criaria Taxa de Lixo se Câmara aprovasse o aumento do IPTU, mas quebrou a promessa
Protelamentos
Acompanhe-nos agora no capítulo dos “protelamentos estruturais” no sentido da “modernização da administração e consequente melhoria dos serviços públicos”, que o candidato Leite prometeu para o estado gaúcho caso chegue ao Piratini, na entrevista ao DP.
Saneamento
No começo de sua gestão, Paula disse que sua principal meta era universalizar o saneamento básico por meio de Parceria Público Privada ou da concessão dos serviços. A oposição levantou a gasta suspeita de “privatização do Sanep”.
Dois anos se passaram, nada foi feito naquela direção, e é óbvio que, ao menos até a eleição para o governo do estado, nada será feito, fazendo presumir que o governo calcula seus passos administrativos em função da agenda eleitoral por maiores espaços de poder. Enquanto isso, Pelotas, no que é essencial, vai ficando para trás.
Sede da Câmara de Vereadores
Luiz Henrique Viana ameaçou avançar rumo à sede própria da Câmara. Mas desistiu
Agora, antes de voltarmos ao Executivo, um exemplo no Legislativo.
O tucano Luiz Henrique Viana, que hoje concorre a deputado estadual, presidia a Câmara em 2017 e, nessa condição, visitou algumas áreas para construção da sede definitiva da Câmara.
Igualmente, porém, nenhum passo deu nessa direção, encerrando o seu mandato mantendo o atual regime de desperdício de aluguel da sede, locação mensal de R$ 40 mil mensais.
A inércia em relação ao tema permanece na gestão atual da Câmara, onde o atual presidente, Anderson Garcia, PTB, sequer toca no assunto, como se fosse delicado bulir com ele antes da eleição, e até depois.
Lembre-se, o PTB é vice na chapa de Leite ao Piratini.
Exames de pré-câncer
Ana Costa: mantida no cargo se secretária de Saúde apesar de ter ignorado alertas de insegurança nos exames de câncer
Nesta altura, por depoimentos e documentos apresentados em CPI na Câmara, ficou claro que a prefeitura foi avisada duas vezes, em 2014 e em 2017, da insegurança dos exames de pré-câncer de colo de útero feitos através do sistema de saúde municipal.
A secretária de Saúde Ana Costa, alertada um par de vezes, nada fez para investigar a possibilidade. Protelou.
A prefeitura só foi agir há pouco, neste 2018, depois da confirmação de pelo menos duas mortes de mulheres por câncer, cujos exames davam “negativo” para a doença. E do fato de que pelo menos outras duas mulheres, mesmo com resultados negativos, terem manifestado a doença e estarem em tratamento.
Afastada por 15 dias, Ana Costa foi reconduzida ao posto de titular da Saúde, como se nada houvesse acontecido. Porque se o governo a demitisse estaria assinando uma confissão de culpa, algo indesejável numa véspera de eleição. De novo, outro protelamento.
O caso é investigado também pelo Ministério Público e a Polícia Federal e, querendo-se ou não, a verdade, cedo ou tarde, vai aparecer.
Outro protelamento, “a rodoviária”
Rodoviária, serviço péssimo, dirigida por um diretor de bloco burlesco e um ex-diretor do Xavante
Apesar dos péssimos serviços do Terminal Rodoviário, Pelotas é o único dos 497 municípios gaúchos onde a rodoviária é “administrada” pela Municipalidade, via autarquia Eterpel, presidida por um diretor do Bloco Burlesco Bafo da Onça, tendo como diretor um ex-diretor do Xavante, que agora concorre a deputado estadual pelo PP.
Nem um nem outro possuem formação para administrar o setor de Transportes, mas isso não tem a menor importância num cenário em que o governante, em vez de privilegiar a capacidade técnica, prefere não desagradar os partidos, principalmente os que valorizam como representantes pessoas ligadas ao Carnaval e ao Futebol.
? Sabe o que é tudo isso, certo? É o velho Brasil do compadrio.
O instinto de sobrevivência dos tucanos pelotenses parece proporcional à própria ambição, talvez aí esteja o problema. Apesar de relativamente jovens, eles têm medo de romper com os velhos esquemas da política tradicional.
Por isso, quando Eduardo Leite fala que “Temos que modernizar a gestão pública (gaúcha)”, é impossível não manter de pé muitas dúvidas. Se ele não modernizou como podia em nível municipal, pensando em não atrapalhar o caminho político até o Piratini, é justo perguntar se o faria se chegasse à cadeira mais alta daquele Palácio.
Comportamento
Nenhum argumento alivia a culpa da prefeitura no caso dos exames de pré-câncer
O caso da insegurança dos exames de pré-câncer de colo de útero feitos através do sistema municipal de saúde é delicado demais porque envolve vida e morte. Não é coisa a ser explorada politicamente. A gente fica até com medo de comentar, com medo de ser mal interpretado. Mas, depois do primeiro, surgiu um segundo […]
O caso da insegurança dos exames de pré-câncer de colo de útero feitos através do sistema municipal de saúde é delicado demais porque envolve vida e morte. Não é coisa a ser explorada politicamente. A gente fica até com medo de comentar, com medo de ser mal interpretado.
Mas, depois do primeiro, surgiu um segundo corpo.
Emanuele, 34 anos, sepultada sábado retrasado, descobriu o câncer no último estágio apenas dois meses depois de o laboratório SEG, conveniado do município, atestar que ela tinha o útero saudável.
Uma segunda mulher, Ana Maria, está se tratando tardiamente. Como Emanuele, os exames de Ana davam normal, mas a doença também avançara ao último estágio. Ela fez novo exame depois de iniciar o tratamento. O resultado do SEG – pasme – continuou a dar normal, embora ela já estivesse (está) doente.
A dupla ocorrência indica que há de fato problemas nos exames.
O caso está sendo investigado pelo Ministério Público e pela Polícia Federal. Uma CPI foi instaurada na Câmara, mas, contaminada politicamente, é provável que não será ela a dar a última palavra sobre o caso.
Dezessete mil lâminas foram recolhidas pelo MP e pela Polícia Civil para reanálise pelo Instituto Geral de Perícias, órgão do governo do estado, que vai fornecer as contraprovas.
Pode-se imaginar o clamor se outras mulheres estiverem doentes.
Por razões de humanidade, queira Deus que ninguém mais esteja na situação de Ana Amaria ou tenha encontrado destino igual ao de Emanuele.
É obvio que a vida humana importa mais que a política. É chocante ver o instinto de sobrevivência política tentando falar alto numa hora assim.
Dito isto, VAMOS AO PONTO:
Em julho de 2017, UM ANO ATRÁS, um grupo de médicos e enfermeiros da UBS Bom Jesus entregou à secretária de Saúde Ana Costa um documento assinado alertando para a insegurança nos exames de pré-câncer (veja abaixo), chegando a apontar o caso concreto de uma paciente que tinha câncer apesar dos resultados darem negativo.
Na verdade, um primeiro alerta havia sido feito por uma médica em 2015, época do governo de Eduardo Leite. Na ocasião a secretária de saúde era Arita Bergmann, tendo Ana Costa como seu braço direito na pasta.
Alerta feito em 2017 à prefeitura: apesar da gravidade, prefeitura ignorou o caso
Fiquemos no segundo alerta. O documento dos profissionais da UBS Bom Jesus registrou que de 2014 a 2017 todos os resultados dos Papanicolau davam “negativos”, fato incomum em desacordo com os indicadores de incidência da doença na cidade e no País, dando margem à suspeita de que os exames eram feitos por amostragem ou incorretamente.
Diante de uma denúncia assim, o que deveria ter feito a secretária Ana Costa?
Deveria providenciar averiguação. Encontrando problemas, a prefeitura deveria avisar a população.
Nem uma coisa nem outra, porém, ocorreram.
O alerta morreu silenciosamente numa gaveta ou em lugar pior. Por quê? Como se explica essa irresponsabilidade?
Esse é o ponto. Isso é o que temos de entender.
Negligência
No debate da Band, na quinta-feira retrasada, o candidato Eduardo Leite disse que “a denúncia foi feita por um jornal”, tentando sugerir que os denunciantes teriam motivação política.
“A denúncia foi feita ao seu governo, em 2015”, corrigiu um oponente no debate, referindo-se ao primeiro alerta. Corrigiu certo, esquecendo-se de acrescentar que o alerta seria renovado em 2017, mas mesmo assim – frise-se – o governo NADA FEZ para esclarecer o caso.
Essa negligência anula qualquer tentativa de EL alegar “motivação política”. Na verdade, EL, prefeita Paula Mascarenhas e Ana Costa, que segue no cargo, ficaram sem respostas por um motivo: não há o que dizer que seja convincente.
Houve negligência e ponto final.
Descumprimento à portaria 3.888
Três famílias até agora anunciaram que vão processar o Município por negligência e o laboratório por negligência ou imperícia.
As advogadas alegarão também que a legislação (Portaria 3.388, de 30 de dezembro de 2013) determina que o Executivo deveria fiscalizar os exames periodicamente, mas que a prefeitura não o fez por sucessivos anos.
Brasil
A crise nas Santas Casas. Ah, o fundo eleitoral…
Mais uma vez estamos assistindo à crise financeira das Santas Casas. Que raios de país é este que, em vez de socorrer a saúde de seu povo, prefere destinar mais de R$ 2 bilhões para fundos partidários e eleitorais? Imagine o quanto esse dinheiro seria útil para as Santas Casas… Imaginou? Partido político deveria viver […]
Mais uma vez estamos assistindo à crise financeira das Santas Casas.
Que raios de país é este que, em vez de socorrer a saúde de seu povo, prefere destinar mais de R$ 2 bilhões para fundos partidários e eleitorais?
Imagine o quanto esse dinheiro seria útil para as Santas Casas… Imaginou?
Partido político deveria viver de contribuições de seus membros e fim.
Comportamento
Infelizmente politizaram o grave caso da insegurança nos exames de Papanicolau
Infelizmente, politizaram o caso da suspeita de insegurança dos exames de pré-câncer de colo do útero (Papanicolau) do sistema municipal de saúde. Até aqui as graves denúncias, que resultaram em CPI na Câmara de Vereadores e em investigações pelo Ministério Público e Polícia Federal, vinham sendo conduzidas sem contaminação política. Dia M… Foi então que […]
Infelizmente, politizaram o caso da suspeita de insegurança dos exames de pré-câncer de colo do útero (Papanicolau) do sistema municipal de saúde.
Até aqui as graves denúncias, que resultaram em CPI na Câmara de Vereadores e em investigações pelo Ministério Público e Polícia Federal, vinham sendo conduzidas sem contaminação política.
Dia M…
Foi então que um grupo de mulheres de organizações e partidos de esquerda organizaram o Dia M da Saúde da Mulher, marcado para esta quinta-feira (02).
Quem assistiu à reunião do grupo na Câmara, viu a deputada Maria do Rosário (PT), deputada Miriam Marroni (PT) e demais colegas do movimento reclamarem ostensivamente do “da prefeita do PSDB, da política neoliberal dos tucanos, do candidato tucano ao Piratini, ex-prefeito Eduardo Leite, na gestão de quem o problema teria sido detectado, sem que ele tenha tomado providências”.
Em apoio às manifestantes estiveram presentes pesquisadoras da Universidade, do Grupo Autônomo de Mulheres de Pelotas (Gamp), integrantes do Sindicato dos Médicos do RS (Simers) e do Sindicato dos Trabalhadores em Saúde (Sindisaúde)
Em seguida Rosário e colegas saíram para uma caminhada até a prefeitura, onde programaram um ato de protesto contra a prefeita Paula Mascarenhas e a favor do refazimento de todos os exames desde 2014, segundo ano da gestão Leite, quando o primeiro alerta de insegurança nos exames foi dado por uma médica pesquisadora.
As denúncias são tão graves que não deveriam descambar para discursos políticos e eleitorais, porque isso enfraquece a legitimidade dos reclames perante a sociedade.
Politicamente, não foi muito inteligente.
Quanto aos exames, o site concorda que devam mesmo ser todos realizados, assim como concorda com todas as investigações.
Editorial
O tal do “fenômeno Bolsonaro”
Bolsonaro não é a pessoa mais sensata, simpática e brilhante do mundo. A esquerda vê problema nisso. Acontece que Dilma também não possui aqueles predicados e foi eleita duas vezes para presidir o Brasil. Insensatez por insensatez, o brasileiro tem o direito democrático de querer outra. Parecemos andar querendo renovar tudo, até mesmo os erros. […]
Bolsonaro não é a pessoa mais sensata, simpática e brilhante do mundo. A esquerda vê problema nisso. Acontece que Dilma também não possui aqueles predicados e foi eleita duas vezes para presidir o Brasil. Insensatez por insensatez, o brasileiro tem o direito democrático de querer outra. Parecemos andar querendo renovar tudo, até mesmo os erros.
Dizem que o capitão não tem ideias, que é puro instinto; puro “ID”, como dizia Freud. Ele tem algumas ideias, sim.
Bolsonaro parece uma fusão na mesma intensidade de ID + EGO, algo que, como foge ao padrão de comportamento, o faz parecer psicologicamente desregulado. Mas o que “ofende” a parcela letrada da sociedade é que o deputado não tem superego. Ele não fica medindo as palavras. Nada o censura na expressão de seus instintos.
Podemos não gostar de algumas manifestações, e não deveríamos mesmo, porque ofendem ideais civilizatórios. O problema é que nossos padrões civilizatórios estão em patamar muito baixo, lá na barriga das cobras. Aí já viu!
Usei a imagem do “retorno ao mundo primitivo dos instintos” para tentar explicar o “fenômeno Bolsonaro”. Talvez não seja bem isso. Afinal, na Aurora do Homem, não havia ideias ainda. Hoje a gente tem um monte de ideias, mas elas só têm servido para resolver a vida da minoria. Diante da maioria, os problemas não apenas permanecem pétreos e intrigantes, como o monolito primal do filme de Kubrick; eles têm aumentado de escala, não só no Brasil.
Quando ocorre a falência das ideias é natural que cedamos lugar ao instinto. Nesses períodos, a gente sente como se a humanidade fechasse o ciclo de uma volta completa em si mesma, retornando ao tempo das cavernas, quando as ideias ainda não existiam.
No Brasil, estávamos acostumados a correr atrás das coisas. Ultimamente temos corrido em fuga de algo. Viver correndo, de qualquer jeito, não parece ser um destino compensador, a não ser para quem considera que a vida não passe de uma prova de atletismo com barreiras, por bastões.
Algumas boas ideias transmitem a impressão de que terão vida longa no Brasil. Mas logo são desafiadas por fatores e circunstâncias. O Plano Real, por exemplo, foi fruto da conjunção de boas ideias. Mesmo com a queda de valor do Real ao longo dos anos, mesmo com o desvario fiscal do PT, a estabilidade da moeda se tem conservado razoavelmente. Já as políticas sociais do governo Lula e o ciclo de bonança econômica induzido pelo Estado petista tiveram vida curta. Com o país quebrado por um aquecimento econômico sem lastro, ainda que misteriosamente sem hiperinflação, 40 milhões de brasileiros que haviam deixado a miséria simplesmente voltaram aos braços dela.
Esse quadro tem tudo a ver com a proeminência de Bolsonaro e da ideias liberais que ele tem pregado. Se elas são aplicáveis ao Brasil, se vão resolver a nossa vida, é outra história.
É comum as pessoas compararem o capitão a Trump. A rigor, não têm muitas coisas em comum. O que há de comum e os permite é o sentimento popular de que as ideias andam exauridas por má aplicação e falta de correspondência na realidade.
Mesmo nos Estados Unidos, principal economia do mundo, as ideias costumam ajudar muito, mas também lá são desafiadas pelo mercado globalizado. Quando as ideias se mostram insuficientes, o povo quer saber de menos conversa e mais bola na rede, do jeito que for. Esse estado de espírito pode eleger Bolsonaro, como elegeu Trump, para surpresa mundial. Trump, como o capitão, é visto pelo eleitor letrado como um passo civilizatório atrás. O diacho é que o grosseirão deles vem fazendo o país crescer novamente.
Se o nosso grosseirão vencer, veremos se o poder econômico vai tratá-lo como tratou Collor ou se vai comprar o que parece ser a ideia do capitão: mergulhar num capitalismo realmente competitivo, emancipado dos velhos subsídios do Estado.
Editorial
Prefeitura foi no mínimo negligente no caso dos exames de pré-câncer
A notícia de que a médica Júlia Kanaan Recuero havia detectado insegurança nos exames preventivos de câncer para colo de útero em 2014, e dado ciência do fato, em 2015, à gestão do então prefeito Eduardo Leite na prefeitura, é o fato novo mais importante para entender o caso das denúncias que motivaram a decisão […]
A notícia de que a médica Júlia Kanaan Recuero havia detectado insegurança nos exames preventivos de câncer para colo de útero em 2014, e dado ciência do fato, em 2015, à gestão do então prefeito Eduardo Leite na prefeitura, é o fato novo mais importante para entender o caso das denúncias que motivaram a decisão de formar uma CPI na Câmara de Vereadores e de abrir investigações no Ministério Público e na Polícia Federal.
Em pesquisa de campo dos exames, chamados “citopatológicos”, a médica chegou – quatro anos atrás – à mesma conclusão a que chegaram os médicos e enfermeiros da UBS Bom Jesus em 2017, três anos anos depois.
Estes também constataram e informaram a prefeitura de sua conclusão: de que desde 2014 os resultados dos exames são “todos negativos”, um fato incomum.
Médica Júlia
Contatada pelo Amigos, Júlia Recuero confirma as informações sobre seu estudo e sobre seu alerta ao Município.
A pesquisa da médica está disponível no Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal de Pelotas, link https://ares.unasus.gov.br/acervo/handle/ARES/4053
Mesmo com os dois alertas, a prefeitura não abriu procedimento para investigar a discrepância dos resultados dos exames. Não teve curiosidade ou não levou a sério, apesar da gravidade.
No mínimo, foi negligente.
Tivesse investigado o assunto quando os alertas foram dados em 2015 e em 2017, e passado a monitorá-lo, a prefeitura teria garantido a segurança dos procedimentos e evitado o mal-estar que a denúncia feita agora tem provocado entre a população. Teria também evitado a CPI e a entrada em cena do Ministério Público e da Polícia Federal.
Relatório de médicos e enfermeiros da UBS Bom Jesus, de 2017
Comportamento
“ÚNICA decisão possível” para tucanos foi apoiar a CPI dos exames de pré-câncer
Os vereadores da base de apoio à prefeitura, maioria na Câmara, obedeceram à prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) e assinaram requerimento de instalação de uma CPI destinada a investigar denúncias de fraudes nos exames de pré-câncer de colo do útero requisitados no sistema municipal de saúde. Com isso, os majoritários vereadores situacionistas se juntaram aos minoritários […]
Os vereadores da base de apoio à prefeitura, maioria na Câmara, obedeceram à prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) e assinaram requerimento de instalação de uma CPI destinada a investigar denúncias de fraudes nos exames de pré-câncer de colo do útero requisitados no sistema municipal de saúde. Com isso, os majoritários vereadores situacionistas se juntaram aos minoritários oposicionistas para viabilizar a primeira CPI sobre a gestão Paula.
Foi histórico por um motivo. Até agora, os vereadores da situação, também obedientes à prefeita, haviam recusado mais de uma proposta de CPI para investigar outras denúncias contra a gestão tucana. Embora fossem igualmente importantes, não houve clamor naquelas ocasiões, quase ninguém se deu conta.
Já o caso dos exames de pré-câncer é diferente. Afeta diretamente todo um gênero – as mulheres. E ainda puxa o cordão de solidariedade dos maridos, amantes e namorados. Uma “fatia e tanto do eleitorado”.
ÚNICA decisão POSSÍVEL para tucanos foi apoiar CPI
Se os tucanos Luiz Henrique Viana, Daniel Trzeciak e Enéias Clarindo + Fabrício Tavares (PSD) + Anderson Garcia (PTB) e outros do time do governo foram capazes de mudar de ideia em relação à aprovação de CPIs, esse fato merece uma consideração, esta: Ficou claro para todo mundo, até mesmo para algum humano que esteja no espaço sideral e acesse notícias de todo O Globo, que a prefeita só aceitou a investigação do episódio dos exames de pré-câncer porque as denúncias tomaram proporções dramáticas.
Não uma proporção dramática qualquer, mas uma com potencial de atingir a candidatura de Eduardo Leite ao Piratini, e mais as candidaturas de Daniel Trzeciak à Câmara Federal e de Luiz Henrique Viana à Assembléia Legislativa. Lembre-se: as denúncias dão conta de que as supostas fraudes nos exames de Papanicolaou viriam ocorrendo deste a gestão de Eduardo Leite. Não por acaso o ex-prefeito gravou, ao lado da prefeita, um vídeo onde demonstra, assim como ela, uma grande indignação, além de uma veemente defesa da CPI.
Nada como uma eleição à vista para demonstrar empatia pela população.
Pegaria mesmo muito mal aos vereadores da base do governo e aos tucanos se todos resolvessem continuar evacuando o quarteirão das CPÌs, como vinham fazendo sorrateiramente. Se os vereadores se recusassem a assiná-la (evidentemente por obediência à prefeita) seria na prática uma CONFISSÃO DE CULPA DOS TUCANOS.
Eduardo e Paula: Juntos pela CPI
Diante disso – SEM OPÇÃO – Paula tomou a ÚNICA decisão possível. Percebe?
NÃO FOI A DECISÃO MAIS CERTA. Mas sim a ÚNICA POSSÍVEL (e menos danosa) para um governo que pensa sobretudo, hoje, no futuro eleitoral de Leite e dos vereadores tucanos com pretensões à AL e à Câmara.
Ainda que tenha sido a ÚNICA DECISÃO POSSÍVEL, ela acaba sendo (ou PARECENDO CERTA) por uma conjuntura inevitável.
Antes, o governo não queria CPI por pequenez de espírito, para não ceder espaços. Por estranho que pareça, passou a querê-la pelo mesmo motivo – aquele sentimento típico de todo ser que de repente se vê acuado.
Aí atrás escrevi que a decisão pode, em vez de certa, parecer certa, por um detalhe: o relatório da CPI só será votado depois que se souber se Eduardo Leite venceu ou foi derrotado na eleição.
Eis a política! Essa matéria invisível que obedece um jogo de interesses em que sentimentos verdadeiros são indistinguíveis dos falsos. Há quem se orgulhe da ambiguidade, vendo nela um um sinal de superioridade, uma espécie de “inteligência espectral” destinada a manejar as massas, mas, no fundo, orgulho assim é sinal de infelicidade.
Vaudeville
Assim como subitamente passou a exigir CPI, a prefeita pôs em férias forçadas Ana Costa, sua secretária de Saúde, assumindo interinamente o papel de “xerife (ou interventora) da Secretaria”, dando sequência ao Vaudeville*. Mais uma vez, sua atitude foi midiática.
Como prefeita, Paula poderia se inteirar plenamente da situação, mantendo Ana no cargo, até porque a presença da secretária é essencial para esclarecer o assunto.
O gesto, porém, contém uma sutileza.
Ao “colocar Ana Costa em férias”, Paula está dizendo sem dizer que a responsabilidade por algum eventual problema que venha a ser confirmado é da secretária, não dela, prefeita, nem de nenhum dos tucanos. Em politica, isso aí se chama “covardia”.
Por mais que tentem fazer parecer o contrário, não é outra coisa senão uma manobra defensiva.
Fosse um governo competente, fosse uma verdadeira rede “Bem Cuidar”, a prefeita desmancharia as denúncias no ato com provas da sua fiscalização dos procedimentos. Como não é, a saída foi apoiar a CPI.
Cartaz do Vaudeville
? Vaudeville foi um gênero de entretenimento de variedades predominante nos Estados Unidos e Canadá do início dos anos 1880 ao início dos anos 1930. Teatro de Variedades.
Editorial
Interinidade de Paula na Saúde é uma ação midiática
A decisão de Paula Mascarenhas de assumir interinamente a Secretaria da Saúde é uma resposta midiática. Segundo release da prefeitura, Paula “colocou em férias” a titular da pasta, Ana Costa. É midiática porque não faz sentido prático. Como prefeita, Paula poderia se inteirar plenamente da situação, assumindo-a para si, mantendo Ana no cargo, até porque […]
A decisão de Paula Mascarenhas de assumir interinamente a Secretaria da Saúde é uma resposta midiática. Segundo release da prefeitura, Paula “colocou em férias” a titular da pasta, Ana Costa.
É midiática porque não faz sentido prático.
Como prefeita, Paula poderia se inteirar plenamente da situação, assumindo-a para si, mantendo Ana no cargo, até porque a presença da secretária é essencial para esclarecer o assunto.
O gesto contém uma sutileza.
Ao “colocar Ana Costa em férias”, Paula está dizendo sem dizer que a responsabilidade por algum eventual problema que venha a ser confirmado é da secretária, não dela, prefeita.
É uma medida preventiva. Uma manobra defensiva.

